eu...

...VOU AMAR, ATÉ QUE O AMOR ACEITE QUE ELE NÃO TEM QUE SER RECÍPROCO.

Seguidores

domingo, 2 de março de 2008

CONTOS

Um remédio.


Aquele dia amanhecera lindo, um sol suave prometia um dia sem frio e sem calor já às primeiras horas daquela manhã; eu não podia esperar mais, era meu primeiro presente de aniversário, (daquele), pois eu estava aniversariando. O dia era tão bem começado que não sobrava vaga para pensamentos negativos, eu estava contente e aguardava a turma para iniciarmos o dia em grupo. Eu tinha uma turma maravilhosa, senti-me o garoto mais feliz do mundo.
Há mais ou menos uma hora pra chegada da turma, chegou meu melhor amigo, não estranhei seu adiantamento, recebi seu abraço, que pena, entristeci, pois ele não estava feliz. Ele me entregou seu presente, uma pequena caixa, esta era baixa e retangular. Eu a peguei, a coloquei sobre a mesa e o olhei novamente, percebi seu esforço por alegrar-me, eu lhe sorri e ele pediu que eu a abrisse.
Comecei abri-la; dentro desta tinha uma segunda, e desta, uma terceira; eu o olhava e procurava perscrutá-lo, estava curioso e feliz, meu amigo brincava comigo, contudo, sobrarara um pequeno tris da primeira impressão, meu contentamento estava, lá no fundo, acabrunhado; e dentro da terceira caixinha, a qual não podia conter mais que um pequeno cartão, uma jóia ou coisa desse porte, eu encontrei uma grande folha de papel e no centro desta, uma frase seca, com palavras contadas, como se fosse um título d'um melodrama.
Eu a olhei, li em silêncio, sem palavras e sem som, olhei meu amigo, ele parecia qualquer coisa que eu não conhecia, esforçava-se pra não estragar meu dia, forjou um sorriso sem graça e fez nascer em mim um novo sentimento.
Olhando-o em seus olhos, sorri compreensivo, lhe abracei, beijei seu rosto e lhe agradeci. Como ainda faltava algum tempo pra hora combinada, ele pediu pra ir à sua casa e garantiu que retornaria. Eu só lhe perguntei, e Soninha? Soninha era a namorada dele, ele respondeu: “também”. Eu lhe sorri mais uma vez e o deixei ir.
Antes que o pessoal chegasse fiz uma longa viagem.
Ele não queria que todos soubessem; apenas eu.
Passamos um dia quase perfeito, os detalhes cederam seus espaços ao todo, e no dia seguinte, em plena sala de aula, cantaram novos parabéns para mim. Para agradecer a meus amigos, fui até à mesa da professora, pedi licença a esta para dizer alguma coisa e disse:
— Eu sou profundamente grato por tê-los como amigos. Eu entendo e quero que entendam: nossas vidas se prendem ao agora, o passado é continuação d'um agora que vivemos, o agora será sempre o agente da história, e, tirando nossos sentimentos, somos iguais em tudo, pois só o que sentimos nos diferencia, e eu queria que continuássemos sentindo, um pelo outro, para todo sempre, esse carinho de agora.
Todos correram até mim, me abraçaram e me beijaram, e minha professora, alheia em meus dezesseis anos, apenas me olhou em silêncio, sorriu e me beijou.
O tempo em sua velocidade constante consome nossa juventude, alguns o acompanham, muitos o assistem.
Meu amigo e sua namorada têm em mim o remédio que a ciência ainda lhes nega e enquanto ele começa a batalha em seu cavalo negro, ela angustia-se por vê-lo sofrer e por não saber quando sua dor começará.
Um certo dia, fui procurado pelas mães de ambos, elas, embora tristes, foram diretas.
— É Raul, nós sabemos que você é o único que sabe sobre nossos filhos, e, mesmo sendo você muito jovem, nós queremos sua opinião sobre como manter tal silêncio ante a angústia deles. Soninha parece ter um organismo mais forte, pois ainda não há sintomas, mas, quanto a Ricardo, já é público seu padecer. Você sabe, fazem muitas perguntas, inclusive os amigos de vocês, e não sabemos até quando conseguiremos enganá-los.
Eu lhes respondi com o sentimento que Ricardo me despertou naquele dia.
— Eu sempre falei pros dois que, em cada situação doravante, vocês terão de agir de acordo com ela. Vocês não têm a obrigação de falarem pra ninguém se não quiserem, ninguém precisa saber, exceto quem já sabe, vocês estão conscientes e isso protege o mundo que lhes rodeia. Senhoras, vocês deverão falar para os curiosos que Ricardo apenas está doente e lhes perguntem que diferença a doença faz, assim estaremos livrando-os dos preconceitos e da pior doença que existe, à qual a humanidade tanto teme; o abandono.
As duas estavam em pranto, abraçaram-me comovidas e se foram.
Nossa turma estava sempre com Ricardo, quando este teve que se afastar do colégio, seu abatimento foi visível, em minha presença, porém, sentia-se, inobstante abatido, um doente consciente de que a vida não garante um mundo de maravilhas para todos, nem a morte escolhe, apenas, os doentes; que nosso estado de saúde só diz respeito ao agora e que vida e morte, são faces de uma mesma moeda.
Em raros momentos, era assustador seu desprendimento e sua naturalidade, todos o admiravam sobremaneira, cada um tinha uma vaga idéia de seu sofrimento e pouco a pouco aprenderam não lhes fazer perguntas.
Nossa amizade era sólida de tal maneira, que só o tínhamos por doente na sala de aula, por sua falta.
Já fazia algum tempo que meu amigo sofria. Às vezes, desesperava-se com a sensação de nos deixar, pois só ele sentia que seus músculos já não sustinham suas forças e que seu eu, já não tinha a mesma bravura. Abraçava-se a nós e chorava o medo do nunca mais, claro que nós não segurávamos o nó na garganta. Nós o sentíamos partir.
Preferimos não contar seu tempo de dor, mas quando recebi seu telefonema, pensei que podia ser o último.
Eu o estranhei no telefone, ele falava tranqüilo; em pouco tempo eu chegava à sua casa; a turma, que morava mais próximo, aguardava-me do lado de fora.
Adentramos seu quarto, Soninha ao seu lado, sofria a dor de ambos e o medo do vazio que ele haveria de lhe deixar. Ajoelhei-me ao seu lado, tomei sua mão, frágil e quase fria, e ao encontrar seu olhar calmo, estrangulei minha dor com a certeza de que meu amigo morria. Na paz de seus últimos instantes, ainda quis dizer-me algo. Pronunciou, um inaudível, “muito obrigado”, colocou a mão de Soninha sobre a minha, como me pedindo que a ajudasse, nos olhou e em agonia soltou nossas mãos.
Tempos se passaram, e num lindo dia, após uma guerra silenciosa e desigual, mesmo assistida por todos seus fiéis soldados, Soninha partiu ao encontro de Ricardo que apenas partira.
Com exceção dos médicos e de seus pais, só eu sabia, e por isso sofri, mais que os outros talvez, a dor de uma AIDS que não era minha.

Fim.

Nenhum comentário: